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Quando era jovem e estava aprendendo a dirigir motocicleta, recebi uma instrução muito útil, da qual nunca mais esqueci:

“Quando estiver dirigindo uma moto, se você bater em qualquer coisa, você perde!”

Da mesma forma, se colidir com qualquer aspecto da verdadeira natureza da realidade, dando a ela concretude como os substancialistas ou considerando que nada existe de forma alguma como os niilistas, você perde!

~ Alan Wallace – “The Fine Path of Liberation” – Santa Barbara – Novembro/2012

Basta soltar

02/15/2014 — 5 Comentários

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“Quando escolhemos a respiração como foco para a prática da meditação, os pensamentos, as imagens, as memórias, os impulsos, todos esses eventos mentais continuam surgindo. Antes que sejamos carregados por eles, podemos simplesmente soltá-los, sem qualquer esforço. A imagem que mais gosto de usar é a de uma criança soltando balões no ar. Não é preciso empurrá-los e nem cortar os fios. Basta soltá-los, alegremente!”

Alan Wallace

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Para avaliarmos se estamos fazendo a prática de shamatha corretamente, há sempre duas coisas a serem consideradas: o que a sua mente está trazendo para você e o que você está trazendo para a sua mente. São duas coisas bem diferentes.

Algumas vezes durante a prática surgirão muitos pensamentos, não há como controlar, não há como escolher que isso seja diferente. Então você simplesmente repousa: muitos pensamentos vêm, muitos pensamentos vão. Você não está fazendo nada de errado; é assim que as coisas são. Mas se quando surgirem muitos pensamentos você for carregado por eles, aí sim: isso é distração, agitação.

Outras vezes, sua mente estará bem quieta, com poucos pensamentos. E isso também não quer dizer que você esteja fazendo a prática corretamente. Sua mente está simplesmente quieta. Neste caso, a mente está trazendo pouco pra você.

O que nós devemos trazer para a prática, seja lá como estiver a nossa mente, é a habilidade de não sermos carregados pelos pensamentos, de permitir que a nossa consciência permaneça em repouso, iluminando o nosso objeto de meditação, seja a respiração, seja o espaço da mente e eventos mentais, seja a própria consciência.

Portanto, é importante avaliar a sua prática em termos do que você está trazendo para a prática e não com base no que a mente está trazendo pra você.

Essa distinção é muito importante. Na nossa vida, alguns dias serão piores que outros. Haverá dias muito conturbados, com muito trabalho, muitas preocupações, dias ruins. A mente estará bastante irritada, toda a nossa energia estará perturbada. Pode ser que você se sente para praticar e dois minutos depois desista: “Esqueça! Hoje não vai dar pra meditar!” E então se levante, vá ver TV, ou vá para a internet. Isso é como estar muito doente e pensar: “Ah… estou tão doente! Estou muito doente pra tomar remédio! Vou deixar pra quando estiver me sentindo melhor!”

Nesses dias em que a sua mente estiver verdadeiramente uma confusão, você pode simplesmente se deitar na sua cama, com um travesseiro macio sob a sua cabeça e soltar completamente a tensão do corpo, a cada expiração, relaxar completamente, deixar o corpo respirar sem esforço, em seu ritmo natural. Relaxe até o finalzinho da expiração e nesse momento deixe a mente bem quieta, sem nenhum blá, blá, blá. E então permita que o ar entre novamente, sem puxá-lo, em total quietude.

Faça isso por 24 minutos. A mente que você trouxe para a prática pode estar completamente perturbada, atirando pensamentos, pedras, lama, tudo o que é tipo de coisa em você. Não há como controlar isso! É o que a mente está trazendo para você. Mas o que você está trazendo para a sua mente é tão doce, tão suave, tão tranquilizador, que após 24 minutos sua mente estará mais calma, quieta, equilibrada. E aí sim, no final da sessão avalie: esta foi uma boa sessão ou não? Talvez uma sessão difícil em termos do que a mente trouxe para você mas uma boa sessão em termos do que você trouxe para a mente.

É nos momentos em que a sua mente está mais desequilibrada que você mais precisa meditar.

~ Alan Wallace, Retiro sobre os “Seis Bardos em A Essência Vajra”, Viamão, 23 de janeiro de 2014

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Este estudo, realizado por pesquisadores de Wisconsin, Espanha e França, investigou os efeitos de um dia de prática meditativa intensiva em um grupo de meditadores experientes, em comparação a um grupo controle de indivíduos não treinados, que se dedicaram a atividades tranquilas mas não à meditação. Após oito horas de prática, os meditadores apresentaram diversas diferenças genéticas e moleculares, incluindo alteração dos níveis de mecanismos genéticos de regulação e níveis reduzidos de genes pró-inflamatórios, que por sua vez se correlacionaram a uma recuperação física mais rápida a uma situação estressante.

O autor do estudo Dr. Richard Davidson revela: “Até onde sabemos, este é o primeiro trabalho que demonstrou alterações rápidas na expressão de genes em praticantes de meditação”.

http://www.news.wisc.edu/22370

Se desejar ler o resumo do artigo original, aqui está:

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0306453013004071

Muitas vezes as coisas mais óbvias são as mais difíceis de enxergar. É bom que olhemos por vários ângulos diferentes, que ouçamos das mais diversas formas, usufruindo do talento generoso de pessoas que buscam compartilhar suas experiências e visões sobre, afinal, como podemos ser mais felizes!

Aqui está uma seleção de conferências de pessoas assim! Que em 2014 nós possamos nos alegrar com as coisas mais simples da vida!

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(Clique na imagem de Matthieu Ricard para assistir aos vídeos, quase todos com legendas em português)

1. Dan Gilbert –  O que nos faz felizes?

Dan Gilbert, autor de “Stumbling on Happiness” (Tropeçando na Felicidade), contesta a idéia de que seremos infelizes se não tivermos o que queremos. Nosso “sistema imunológico psicológico” permite que sejamos felizes mesmo quando as coisas não são como planejamos.

2. Malcolm Gladwell sobre Molho de Espaguete

Autor de Tipping Point, Malcolm Gladwell detalha a busca pelo molho de espaguete perfeito pela indústria alimentícia — e faz uma discussão mais ampla sobre a natureza da escolha e da felicidade.

3. ihaly Csikszentmihalyi: Flow, o segredo da felicidade

Csikszentmihalyi pergunta, “O que faz a vida valer a pena?”. Observando que o dinheiro não traz felicidade, ele analisa aqueles que encontram prazer e satisfação duradoura em atividades que levam ao estado de “Flow”.

4. Michael Norton – Como comprar a felicidade?

TEDxCambridge, Michael Norton compartilha uma pesquisa fascinante sobre como o dinheiro pode, de verdade, comprar felicidade — quando você não gasta consigo mesmo. Fique atento aos dados surpreendentes sobre as muitas maneiras como o gasto prossocial pode beneficiar você, seu trabalho e (claro) outras pessoas.

5. Barry Schwartz sobre o paradoxo da escolha

O psicólogo Barry Schwartz mira em um dos dogmas centrais da sociedade ocidental: liberdade de escolha. Schwartz estima que a escolha nos tornou menos livres e mais paralisados, mais insatisfeitos em vez de mais felizes.

6. David Steindl-Rast: Quer ser feliz? Seja grato (legenda em espanhol)

A única coisa que todos os seres humanos temos em comum é que cada um de nós quer ser feliz, diz o Irmão David Steindl-Rast, um monge e erudito interreligioso. E a felicidade, sugere, nasce da gratidão.

7. Graham Hill: Menos coisas, mais felicidade

Escritor e designer Graham Hill pergunta: Será que ter menos coisas, em um espaço menor, leva a mais felicidade? Ele argumenta em favor de ocupar menos espaço e coloca três regras para que você possa editar sua vida.

8. Matthieu Ricard: sobre os hábitos da felicidade

O que é a felicidade e como podemos conquistá-la? Matthieu Ricard, bioquímico que se tornou monge Budista, afirma que podemos treinar nossa mente nos hábitos do bem-estar para gerar um verdadeiro sentimento de serenidade e realização.

9.  Daniel Kahneman: O enigma da experiência x memória

Os exemplos que vão desde férias até colonoscopias, o vencedor do prêmio Nobel e fundador da economia comportamental Daniel Kahneman revela como nossas duas individualidades, o “eu da experiência” e o “eu das lembranças” percebem a felicidade de forma diferente. Essa revelação tem implicações profundas na economia, na política pública — e em nossas consciências.

10. Ron Gutman: O poder oculto do sorriso

Ron Gutman revê uma série de estudos sobre o sorriso e revela resultados surpreendentes. Você sabia que o seu sorriso pode prever quanto tempo você irá viver – e que um simples sorriso possui um efeito mensurável do seu bem estar? Prepare-se para mexer alguns músculos faciais enquanto você aprende mais sobre esse comportamento evolucionário contagiante.

A vida dele é a busca de uma eterna busca.
É o futuro que cria o seu presente.
Tudo é uma cadeia interminável de desejo.

Robert Frost

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~ Sharon Salzberg – MInd and Life Institute

Há muito tempo penso que neste trecho do poema, “Escapista – Nunca”, Robert Frost capta muito do que as tradições contemplativas descrevem como desejo, uma fonte de grande sofrimento. Desejo é diferente de força motivadora, intencionalidade e determinação; no desejo há um elemento de fixação sobre o que não se tem, em detrimento de apreciar e de ser grato por aquilo que se tem. É uma busca que nunca termina, que sempre segue pensando na próxima fonte potencial de alegria, enquanto a sensação de suficiência ou de satisfação no momento presente nos escapa.

Veja onde nós estamos buscando pela felicidade: naquilo que ainda não está aqui.

No poema, há também pistas sobre as maneiras pelas quais podemos confundir prazeres temporários com a felicidade mais profunda que está à nossa disposição.

Existe uma ansiedade na felicidade que se baseia exclusivamente na experiência do prazer (por ser tão agradável), porque junto com essa dependência vem a necessidade de o prazer nunca mudar. Nós provavelmente já experimentamos o cansaço de passar de um objeto a outro, de experiência em experiência, necessitando de cada vez mais intensidade, sem estímulo suficiente para nos sentirmos vivos enfim, e que precisamos encontrá-lo… em algum lugar. Esta é a espiral viciante: não estarmos atentos o suficiente para nos conectarmos fortemente com o que está acontecendo agora, e tentando evitar o inevitável – a insatisfação provocada por focar mais e mais o desejo.

Então, como vamos nos libertar do hábito de desejar?

Há aquele exemplo do sapo que está em um pequeno lago e é informado sobre a existência do oceano. O sapo não acredita no que lhe é dito, por estar tanto tempo submerso em seu pequeno lago, tão familiar e tão perdido nesse mundo circunscrito. O sapo não pode sequer imaginar outras possibilidades. Para explorar o mundo além da fixação do desejo, precisamos ampliar nossa imaginação, o nosso sentido de aspiração, do que é possível para nós, e explorar nossas próprias mentes.

Podemos estabelecer uma relação diferente com a nossa própria insatisfação, para que quando ela aparecer nós possamos olhar para ela de uma forma mais saudável, em vez de tentar evitá-la ou encobri-la. Podemos nos lembrar de apreciar o que está aqui, o que temos, e nos lembrar de que tudo muda inevitavelmente. Isso tudo diz respeito à meditação, que é o cultivo de uma qualidade de consciência que muda nossa relação a nossa experiência, seja ela qual for neste momento. Se sentimos que a experiência é agradável, aprendemos a estar com ela de forma mais plena, com menos distração, e deixando-a mudar. Se achamos que a experiência neste momento é dolorosa, aprendemos enfrentá-la de forma mais honesta e com mais compaixão, em vez de tentar fazer qualquer coisa para fugir dela. Se a experiência no momento presente nos parece ser neutra, nem agradável e nem desagradável, simplesmente rotineira ou comum, podemos aprender a quebrar o ciclo da busca interminável por mais intensidade, e nos conectar mais plenamente ao que está aqui, neste momento.

É assim que escapamos da prisão do desejo.

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Sharon Salzberg é co-fundadora da Insight Meditation Society (IMS), em Barre, Massachusetts. Ela estuda a meditação desde 1971, orientando retiros em todo o mundo desde 1974. Seu livro mais recente, best-seller do The New York Times, é Real Happiness: The Power of Meditation: A 28-Day Program, publicado pela Workman Publishing. Ela é um colaboradora regular de The Huffington Post e é também o autora de vários outros livros, incluindo The Force of Kindness (2005), Faith: Trusting Your Own Deepest Experience (2002), and Lovingkindness: The Revolutionary Art of Happiness (1995).